Karl Stig-Erland Larsson, mais conhecido como Stieg Larsson,
nasceu em agosto de 1954 e morreu aos 50 anos, em novembro de 2004. A
causa de sua morte foi, possivelmente, um ataque cardíaco enquanto subia
as escadas para o seu escritório, onde trabalhava na época. Fundador e
editor-chefe da revista Expo, na Suécia, na qual organizações
neofacistas e racistas eram denunciadas, o autor recebeu, por isto,
diversas ameaças de morte. Ele teve uma vida agitada, defendendo
assiduamente seus ideais como ativista político e tendo forte atuação na
luta pelos direitos humanos
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| Autor da trilogia "Millennium", Stieg Larsson / Foto: divulgação. |
O tema principal do primeiro livro da série, que é a violência sexual contra as mulheres, tem inspiração real em um acontecimento ocorrido com Larsson quando ele tinha 15 anos de idade. Segundo amigos próximos, o autor testemunhou o estupro coletivo de uma jovem e não conseguiu reagir contra o crime. Anos mais tarde, devido à culpa, o nome dado a sua heroína literária de Millenium seria o mesmo da jovem violentada: Lisbeth.
O romance de suspense traz à tona questões sempre atuais, como divergências políticas, religião, violência, ética, moral e as relações familiares e pessoais de modo geral. O autor objetiva através das tramas e mistérios incitar o leitor a buscar respostas, pela busca da compreensão de mentes perigosas e doentias e daquelas que são socialmente excluídas por um motivo ou outro.
Mikael Blomkvist, um dos personagens principais, é jornalista e editor-chefe da revista sueca Millennium, responsável por denunciar corrupções, grandes corporações financeiras e canastrões do mundo econômico. Ele mantém um caso que já dura 20 anos com sua sócia Erika Berger – uma mulher casada e com certa liderança natural. O casamento de Mikael não resistiu ao caso com Erika, porém, o marido dela parece não se importar com a existência daquela terceira pessoa entre eles.
Durante uma investigação cujo objetivo era desmascarar um dos grandes corruptos do país, Hans-Erik Wennerströem, Blomkvist acaba caindo em inúmeras armadilhas que revertem sua posição favorável e o colocam diante de um processo por difamação, que, mais tarde, lhe rende uma pena de três meses na prisão. Tentando se afastar da mídia e ter um descanso necessário, ele aceita uma proposta tentadora de Henrik Vanger, a cabeça por trás do império industrial dos Vanger: se isolar na ilha de Hedestad, o lar da família Vanger, e investigar o desaparecimento misterioso de sua sobrinha Harriet, ocorrido 40 anos antes.
O jornalista se compromete em tentar solucionar o caso, mas sem muitas esperanças. Em meio a relatórios policiais, notícias, objetos pessoais de Harriet, fotos e o frio congelante de Hedestad, ele inicia sua investigação e começa a perceber que será muito mais difícil prosseguir sozinho, então pede a ajuda de um assistente que Dirch Frode, advogado de Henrik, contrataria por determinando período. Frode indica Lisbeth Salander, uma hacker indomável que, meses antes, havia feito uma pesquisa sobre a vida de Mikael a mando do próprio Henrik Vanger.
A partir deste ponto, jornalista e hacker nos conduzem em uma investigação empolgante e cheia de intrigas. São dois personagens, que, além de solitários, cada qual a sua maneira, eram alheios àquele universo familiar e cheio de histórias – umas boas, outras nem tanto – e de repente se veem vivenciando acontecimentos que de outra forma seria impossível. As relações da narrativa são profundamente realistas. Estamos falando de mulheres violentadas, de corruptos, de nazismo e outras correntes duvidosas, e de pessoas que estão constantemente à procura de justiça, defendendo as vítimas de tais agressões físicas e morais.
Mikael é um personagem quase óbvio, não no sentido de mal escrito ou articulado, mas no de pessoa previsível. De coração mole, ele é capaz de perdoar sempre que possível, e é amável por sua capacidade de se adaptar aos diferentes tipos de pessoas, jeitos e trejeitos. Ele tem, porém, um defeito terrível: é manipulável e nos parece, muitas vezes, que têm consciência disso. O que mais atrai nele é o envolvimento com Lisbeth. Não há porquês evidentes, mas o fato é que ele foi capaz de se atrair e aceitar aquela criatura tão diferente. Algo que já o torna especial aos olhos do leitor, além do charme evidente que pode não se encontrar explícito nas páginas do livro, mas que somos capazes de reconhecer sem muitos esforços.
A primeira coisa que ficamos sabendo a respeito de Lisbeth Salander é que ela trabalha para a Milton Security, uma empresa de alta tecnologia, na qual exerce o papel de minuciosa investigadora, embora passe poucas horas no escritório. Sua relação com o chefe, Dragan Armansky, é de confiança, mas também de uma incrível frieza por parte de Lisbeth, que sempre se esquiva das tentativas de aproximação de Dragan. Ela não tem rédeas e, por inúmeras razões, há controvérsias acerca da personagem. Há quem diga que seu corpo magro e suas inúmeras tatuagens são sinais de adolescência tardia ou infinita.
O autor, porém, a descreveu bem. Sua revolta, arrogância e seu lado antissocial são marcas de alguém que foi emocionalmente abalada pelos acontecimentos de uma vida conturbada, mas o que Larsson definiu antes de tudo é a capacidade da recuperação humana: somos mais capazes de nos recuperar após as tragédias que nos ocorrem do que imaginamos. Lisbeth, na intimidade, não se mostra muito diferente de qualquer outra mulher, e, no fim, estamos falando de uma pessoa como qualquer outra, com suas tragédias e limitações. E ela não é apenas frieza, é uma personagem muito inteligente, capaz de artimanhas que muitos não conseguem, e por trás dos piercings e tatuagens, alguém profundamente atraente.
Fechar o livro é como perder uma parte de si, você quer cuidar daquela menina franzina e anoréxica e tem vontade de sacudir o Super Blomkvist. Afinal, quem não se apaixonaria por uma criatura tão instigante? Porém, por inúmeras vezes, a relação dos dois não passa de estranheza e hostilidade. Então, nos damos conta de que Lisbeth não fazia mais que carregar o peso desta estranha relação. Assim, como podemos defendê-la quando tudo o que ela fazia era se afastar, inclusive de nós, leitores?
Um país deveria se orgulhar de ter uma figura como Stieg Larsson. Além de ter sido um dos jornalistas mais influentes da Suécia, deixou três obras literárias cujo valor moral e ético servirá de guia para mentes idealistas e que dá voz a figuras que muitas vezes são esquecidas pela sociedade – como a apaixonante e imprevisível Lisbeth Salander.
Há um trecho no romance, uma passagem calorosa em que Lisbeth conclui que o amor é “o instante em que o coração fica a ponto de explodir”. Percebe-se que não só ela poderia se dedicar também – como qualquer outro ser humano, veja bem – ao passatempo do amor, como Larsson, no imaginário do leitor, também se compadecia e tinha um coração capaz de escrever não somente sobre corrupção e violência, mas também sobre a natureza inerente do ser humano. Antes de qualquer coisa, era um homem que se orgulhava de amar as mulheres na sua natureza mais íntima e encantadora – seja que forma ela assumisse.
No cinema
“The Girl with the Dragon Tattoo”, a versão norte-americana, estreou em 2011, com direção de David Fincher e com Rooney Mara – indicada à categoria de Melhor Atriz no Oscar 2012 e ao Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme de Drama – e Daniel Craig como os personagens principais. As duas sequências já foram confirmadas pela Sony, mas ainda sem previsão de estreia.
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| Daniel Craig e Rooney Mara no filme / Foto: divulgação. |
O jornalismo da Millennium
A origem do título da trilogia de Larsson vem do nome da revista fictícia na qual Mikael Blomkvist e Erika Berger trabalham e são fundadores. O jornalismo é uma premissa sempre presente em “Millennium”, e os livros são recheados de tipos lições que servem como lembretes para qualquer jornalista.
A busca faminta e desesperada por pessoas, pistas e informações que ajudem a desvendar um mistério e a desmascarar possíveis canalhas é retratada de forma ética e correta, apesar de sempre desenfreada. Mikael consegue encontrar soluções e juntar informações sem revelar nenhuma de suas fontes, o que, às vezes, lhe custa muito caro.Larsson não escreveu apenas uma história de suspense em “Millennium”. Ele usou a obra para dar uma alfinetada no jornalismo sueco – e, por que não dizer, mundial – ao denunciar práticas e jogos políticos e econômicos que estão presentes pelas redações do mundo todo, desde as menores até as maiores. Enquanto a maioria das revistas e jornais suecos fechava os olhos para a corrupção econômica que acontecia no país a fim de não comprometer seu sustento, através da publicidade impressa em suas páginas, a Millennium trabalhava arduamente para denunciar as máfias de colarinho branco e, por diversas vezes, se viu quase indo à falência justamente por isto.
Outro ponto de destaque se trata do embate ético no qual Mikael se encontra quando precisa decidir se usar de meios ilegais - no caso, invasão de computadores - é válido para denunciar os crimes cometidos por Wennerströem no primeiro livro da trilogia. No final, o personagem se dá conta de que, às vezes, é preciso atravessar certas barreiras e burlar algumas regras se quisermos fazer justiça de fato. Larsson também nos mostra em sua obra que, por vezes, sensos pessoais de justiça são mais justos que sensos sociais, e que não há problema algum nisto. Mais do que um bom suspense, "Millenium" é puro jornalismo, em sua mais honesta e pura essência.
O que: Millennium.
Autor: Stieg Larsson.
Editora: Companhia das Letras.
Quanto: R$ 89,90 a trilogia.
Gênero: suspense.
Quando: 2005, 2006 e 2007.