segunda-feira, 15 de abril de 2013

Quando o filme é melhor que o livro

Livro com a capa do filme, lançado em 2012
O livro

A primeira característica que chama a atenção de quem lê “As Vantagens de Ser Invisível” (The Perks of Being a Wallflower), do norte-americano Stephen Chbosky, é a estrutura epistolar do texto. Não há começo, meio e fim. Cada capítulo é uma carta escrita em primeira pessoa por Charlie, personagem principal da história, a um amigo anônimo.

Charlie é um adolescente incompreendido, instável e tímido que se sente inseguro ao ingressar no Ensino Médio pouco tempo depois da morte do seu melhor e único amigo, Michael. Sua vida começa a mudar somente quando ele conhece Patrick e Sam, dois veteranos que se tornam seus companheiros dentro e fora da escola.

De início, a narrativa parece insossa. Charlie tem 15 anos, mas, por vezes, escreve com a inocência de uma criança, com trechos quase didáticos. Fica claro desde os primeiros capítulos que não se trata da história de um adolescente normal, e sim de alguém emocionalmente abalado. Com alguma insistência, porém, a leitura se torna agradável. “As Vantagens de Ser Invisível” é um livro que vale a pena principalmente pela amizade retratada entre os protagonistas. O sentimento que une os três é desmedido, incondicional, sem preconceitos e absolutamente honesto e sincero. Outro ponto positivo são as alusões à literatura, música e cultura pop em geral.

O problema é a pretensão da história. São muitos temas polêmicos – suicídio, depressão, uso de drogas, violência contra a mulher, aborto, abuso sexual e homossexualismo – para um personagem com pouco carisma administrar. Em determinado ponto, as (muitas) tragédias pessoais de Charlie se tornam enfadonhas e ocupam um espaço que poderia ser mais bem aproveitado com outras situações, que também são comuns à adolescência. O final é previsível e o desfecho, sem graça.

O filme

O livro foi publicado pela primeira vez em 1999, mas ganhou mais notoriedade em 2012, com o lançamento da versão cinematográfica homônima, dirigida e roteirizada pelo próprio Chbosky e com Logan Lerman (de Percy Jackson e o Ladrão de Raios), Ezra Miller (de Precisamos Falar Sobre o Kevin), Emma Watson (da saga Harry Potter) e Nina Dobrev (do seriado The Vampire Diaries) no elenco.

Se nas páginas a história deixa a desejar, nas telas o enredo ganha vida e conquista o público com facilidade. As interpretações de Lerman, Miller e Emma como protagonistas são tão impecáveis que “consertam” algumas das falhas dos personagens originais mostradas no livro.

Logan Lerman, Emma Watson e Ezra Miller (no centro)
em "As Vantagens de Ser Invisível" / Foto: divulgação.
Além disso, no filme, a choradeira do protagonista diminui consideravelmente, e, com menos lamentações e mais diálogos, o personagem irritante do livro sede espaço a um novo Charlie, reinventado, mais agradável e divertido. O drama continua lá, mas é mostrado de uma forma diferente, transformando “As Vantagens de Ser Invisível” em um belíssimo longa-metragem, que ressalta a importância da amizade e usa, como cenário, a vida de um grupo atípico de adolescentes.

Outro diferencial do filme é a forma como Chbosky enfatizou os romances da história. O relacionamento entre Patrick e Brad é belamente mostrado na versão cinematográfica, fazendo jus à situação narrada em 1999. Charlie e Sam – que, no livro, têm um remate um tanto quanto fraco – protagonizam algumas das cenas mais encantadoras do longa, mostrando não apenas um final alternativo, mas também com mais sentimento e entrega entre os personagens.

Emma Watson e Logan Lerman em cena do filme / Foto: divulgação.
Tem mais. A trilha sonora. As referências musicais são destaque no livro, mas convenhamos: música é para ser lida, sentida e, principalmente, ouvida. Asleep, dos Smiths, Teenage Riot, do Sonic Youth,Temptation, do New Order e a sensacional “Heroes”, de David Bowie, são apenas algumas das canções que embalam a trama. We can be heroes, for ever and ever. What d'you say?

Confira o trailer:



O quê: As Vantagens de Ser Invisível.
Autor: Stephen Chbosky.
Editora: Rocco.
Quanto: R$ 29,50 o livro.
Gênero: young adult, romance, drama.
Quando: 1999 / 2012. 
 

Para saber mais: Facebook, Tumblr, Pinterest e Twitter do filme e do autor


quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Para ninar gente grande

Se você é fã de guitarras distorcidas e solos de bateria, aviso que talvez seja melhor parar a leitura neste momento – ou se preparar para algo bem diferente. Este é um texto sobre música, contudo, as canções aqui mencionadas estão mais próximas dos ouvidos de casais irremediavelmente apaixonados do que de shows de rock e festas eletrônicas. Elas pertencem a Avalanche City e The Mostar Diving Club, dois grupos que você provavelmente não conhece, mas deveria.

Reconhecidas as diferenças e peculiaridades de cada uma, estas duas bandas foram colocadas lado a lado porque, além da semelhança no estilo, que lembra cantigas de ninar, elas trazem à memória os mesmos sentimentos de calmaria, conforto, tranquilidade e aconchego. Como um cafuné. Além disso, apesar da multiplicidade de instrumentos, suas músicas são singelas, às vezes até inocentes, e têm em comum (quase) sempre o mesmo tema: amor.

O grande destaque são as letras, que narram situações cotidianas, mas fogem da abordagem clichê e cafona comum em canções românticas, mostrando as relações interpessoais sob uma ótica diferenciada, leve, sincera. Como em "you smile at me and I at you, cos this is all we ever wanted to do" ou whisper in my ear, I can hear you now, what a sound.

Sobre as bandas 


Avalanche City é um grupo de música folk que nasceu em Auckland, na Nova Zelândia, como projeto solo do cantor Dave Baxter, que, mais tarde, se uniu a Ben Duncan (bateria), Johnny Brock (baixo), Ben Tolich (teclados), Strahan Cole (guitarra e vocais) e Rodriguez Romelli (violino, acordeão, piano e percussão). O álbum de estreia, “Our New Life Above The Ground” (2011), foi disponibilizado gratuitamente na internet por tempo limitado e atingiu a marca de 10 mil downloads.

“Love Love Love”, o primeiro single, ficou topo das paradas neozelandesas por quatro semanas, apesar da pouca presença nas rádios. Vale escutar, também: “Drive On”, “The Streets”, “You and I”, “Go”, “Ends In The Ocean” e a recém-lançada “Sunset”.

O sucesso de Avalanche City – pelo menos no país de origem – pode ser explicado pela forma como a banda equilibra beleza e simplicidade tanto nas músicas quanto na arte visual em torno delas. Os encartes dos CDs são tão encantadores que dá vontade de pendurar na parede, e os videoclipes são uma atração à parte, com desenhos, bonecos, cores e outros artifícios cativantes.


Love Love Love 


 
You and I 

 
Sunset
 


Criada pelo cantor e compositor Damian Katkhuda, The Mostar Diving Club é “uma banda fantástica e experimental que não tem medo de assumir diferentes estilos e gêneros”, segundo seus próprios integrantes. As músicas do primeiro álbum, “Don Your Suit of Lights” (2009), foram escritas em uma fazenda isolada no sul da França e contêm um pouco de tudo: gravações de orquestras, violinos, trombetas, acordeões, banjos, harpas e cavaquinhos, entre outros instrumentos. 


Uma mistura eclética que resultou tanto em produções mais elaboradas, como “Vagabonds and Clowns”, quanto na simples “There Goes My Mind (Plastic Girls)”, composta apenas por guitarra e vocal e gravada em um jardim. Destaque também para “The Great Explores” e “Then Came a Thousand Elephants”.

O grupo ficou mais conhecido em 2010, através da trilha sonora de “Waiting for Forever”, um belíssimo longa-metragem protagonizado por Rachel Bilson (a Summer de The O.C.) e Tom Sturridge. As músicas “Forever Goodbye”, “Worlds Apart” e “Worlds Collide” pontuam com sensibilidade os momentos mais expressivos do filme, dialogando perfeitamente com a história contada pelos personagens.

"Triumph of Hope", o segundo álbum de estúdio da banda, deve ser lançado comercialmente ainda em 2012. Por enquanto eles não têm videoclipes oficiais, mas vale dar uma espiadinha no trailer de “Waiting for Forever”, com uma parte da trilha sonora:


 


sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Sobre Stieg Larsson e a trilogia Millennium

A trilogia “Millennium” – “Os homens que não amavam as mulheres” (2005), “A menina que brincava com fogo” (2006) e “A rainha do castelo de ar” (2007) – é uma das mais bem-sucedidas séries de suspense dos últimos anos, que rendeu mais de 65 milhões de cópias desde seu lançamento e foi considerada, no ano de 2008, best-seller mundial. O que pouca gente sabe é que o autor, infelizmente, faleceu antes que pudesse ver todo o alvoroço em torno da obra.

Karl Stig-Erland Larsson, mais conhecido como Stieg Larsson, nasceu em agosto de 1954 e morreu aos 50 anos, em novembro de 2004. A causa de sua morte foi, possivelmente, um ataque cardíaco enquanto subia as escadas para o seu escritório, onde trabalhava na época. Fundador e editor-chefe da revista Expo, na Suécia, na qual organizações neofacistas e racistas eram denunciadas, o autor recebeu, por isto, diversas ameaças de morte. Ele teve uma vida agitada, defendendo assiduamente seus ideais como ativista político e tendo forte atuação na luta pelos direitos humanos

Autor da trilogia "Millennium", Stieg Larsson / Foto: divulgação.
O tema principal do primeiro livro da série, que é a violência sexual contra as mulheres, tem inspiração real em um acontecimento ocorrido com Larsson quando ele tinha 15 anos de idade. Segundo amigos próximos, o autor testemunhou o estupro coletivo de uma jovem e não conseguiu reagir contra o crime.  Anos mais tarde, devido à culpa, o nome dado a sua heroína literária de Millenium seria o mesmo da jovem violentada: Lisbeth.

O romance de suspense traz à tona questões sempre atuais, como divergências políticas, religião, violência, ética, moral e as relações familiares e pessoais de modo geral. O autor objetiva através das tramas e mistérios incitar o leitor a buscar respostas, pela busca da compreensão de mentes perigosas e doentias e daquelas que são socialmente excluídas por um motivo ou outro.


Mikael Blomkvist, um dos personagens principais, é jornalista e editor-chefe da revista sueca Millennium, responsável por denunciar corrupções, grandes corporações financeiras e canastrões do mundo econômico. Ele mantém um caso que já dura 20 anos com sua sócia Erika Berger – uma mulher casada e com certa liderança natural. O casamento de Mikael não resistiu ao caso com Erika, porém, o marido dela parece não se importar com a existência daquela terceira pessoa entre eles.


Durante uma investigação cujo objetivo era desmascarar um dos grandes corruptos do país, Hans-Erik Wennerströem, Blomkvist acaba caindo em inúmeras armadilhas que revertem sua posição favorável e o colocam diante de um processo por difamação, que, mais tarde, lhe rende uma pena de três meses na prisão. Tentando se afastar da mídia e ter um descanso necessário, ele aceita uma proposta tentadora de Henrik Vanger, a cabeça por trás do império industrial dos Vanger: se isolar na ilha de Hedestad, o lar da família Vanger, e investigar o desaparecimento misterioso de sua sobrinha Harriet, ocorrido 40 anos antes.


O jornalista se compromete em tentar solucionar o caso, mas sem muitas esperanças. Em meio a relatórios policiais, notícias, objetos pessoais de Harriet, fotos e o frio congelante de Hedestad, ele inicia sua investigação e começa a perceber que será muito mais difícil prosseguir sozinho, então pede a ajuda de um assistente que Dirch Frode, advogado de Henrik, contrataria por determinando período. Frode indica Lisbeth Salander, uma hacker indomável que, meses antes, havia feito uma pesquisa sobre a vida de Mikael a mando do próprio Henrik Vanger.


A partir deste ponto, jornalista e hacker nos conduzem em uma investigação empolgante e cheia de intrigas. São dois personagens, que, além de solitários, cada qual a sua maneira, eram alheios àquele universo familiar e cheio de histórias – umas boas, outras nem tanto – e de repente se veem vivenciando acontecimentos que de outra forma seria impossível. As relações da narrativa são profundamente realistas. Estamos falando de mulheres violentadas, de corruptos, de nazismo e outras correntes duvidosas, e de pessoas que estão constantemente à procura de justiça, defendendo as vítimas de tais agressões físicas e morais.


Mikael é um personagem quase óbvio, não no sentido de mal escrito ou articulado, mas no de pessoa previsível. De coração mole, ele é capaz de perdoar sempre que possível, e é amável por sua capacidade de se adaptar aos diferentes tipos de pessoas, jeitos e trejeitos. Ele tem, porém, um defeito terrível: é manipulável e nos parece, muitas vezes, que têm consciência disso. O que mais atrai nele é o envolvimento com Lisbeth. Não há porquês evidentes, mas o fato é que ele foi capaz de se atrair e aceitar aquela criatura tão diferente. Algo que já o torna especial aos olhos do leitor, além do charme evidente que pode não se encontrar explícito nas páginas do livro, mas que somos capazes de reconhecer sem muitos esforços.


A primeira coisa que ficamos sabendo a respeito de Lisbeth Salander é que ela trabalha para a Milton Security, uma empresa de alta tecnologia, na qual exerce o papel de minuciosa investigadora, embora passe poucas horas no escritório. Sua relação com o chefe, Dragan Armansky, é de confiança, mas também de uma incrível frieza por parte de Lisbeth, que sempre se esquiva das tentativas de aproximação de Dragan. Ela não tem rédeas e, por inúmeras razões, há controvérsias acerca da personagem. Há quem diga que seu corpo magro e suas inúmeras tatuagens são sinais de adolescência tardia ou infinita.


O autor, porém, a descreveu bem. Sua revolta, arrogância e seu lado antissocial são marcas de alguém que foi emocionalmente abalada pelos acontecimentos de uma vida conturbada, mas o que Larsson definiu antes de tudo é a capacidade da recuperação humana: somos mais capazes de nos recuperar após as tragédias que nos ocorrem do que imaginamos. Lisbeth, na intimidade, não se mostra muito diferente de qualquer outra mulher, e, no fim, estamos falando de uma pessoa como qualquer outra, com suas tragédias e limitações. E ela não é apenas frieza, é uma personagem muito inteligente, capaz de artimanhas que muitos não conseguem, e por trás dos piercings e tatuagens, alguém profundamente atraente.


Fechar o livro é como perder uma parte de si, você quer cuidar daquela menina franzina e anoréxica e tem vontade de sacudir o Super Blomkvist. Afinal, quem não se apaixonaria por uma criatura tão instigante? Porém, por inúmeras vezes, a relação dos dois não passa de estranheza e hostilidade. Então, nos damos conta de que Lisbeth não fazia mais que carregar o peso desta estranha relação. Assim, como podemos defendê-la quando tudo o que ela fazia era se afastar, inclusive de nós, leitores?


Um país deveria se orgulhar de ter uma figura como Stieg Larsson. Além de ter sido um dos jornalistas mais influentes da Suécia, deixou três obras literárias cujo valor moral e ético servirá de guia para mentes idealistas e que dá voz a figuras que muitas vezes são esquecidas pela sociedade – como a apaixonante e imprevisível Lisbeth Salander.


Há um trecho no romance, uma passagem calorosa em que Lisbeth conclui que o amor é “o instante em que o coração fica a ponto de explodir”. Percebe-se que não só ela poderia se dedicar também – como qualquer outro ser humano, veja bem – ao passatempo do amor, como Larsson, no imaginário do leitor, também se compadecia e tinha um coração capaz de escrever não somente sobre corrupção e violência, mas também sobre a natureza inerente do ser humano. Antes de qualquer coisa, era um homem que se orgulhava de amar as mulheres na sua natureza mais íntima e encantadora – seja que forma ela assumisse.


No cinema


A série “Millennium” chegou aos cinemas no ano de 2009 com a versão sueca de “Os homens que não amavam as mulheres” dirigida por Niels Arden Oplev, com Noomi Rapace e Michael Nyqvist nos papeis de Lisbeth e Mikael. As duas sequências, “A menina que brincava com fogo” e “A rainha do castelo de ar”, ambas dirigidas por Daniel Alfredson, estrearam no mesmo ano.

The Girl with the Dragon Tattoo”, a versão norte-americana, estreou em 2011, com direção de David Fincher e com Rooney Mara – indicada à categoria de Melhor Atriz no Oscar 2012 e ao Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme de Drama – e Daniel Craig como os personagens principais. As duas sequências já foram confirmadas pela Sony, mas ainda sem previsão de estreia.

Daniel Craig e Rooney Mara no filme / Foto: divulgação.

O jornalismo da Millennium


A origem do título da trilogia de Larsson vem do nome da revista fictícia na qual Mikael Blomkvist e Erika Berger trabalham e são fundadores. O jornalismo é uma premissa sempre presente em “Millennium”, e os livros são recheados de tipos lições que servem como lembretes para qualquer jornalista.


A busca faminta e desesperada por pessoas, pistas e informações que ajudem a desvendar um mistério e a desmascarar possíveis canalhas é retratada de forma ética e correta, apesar de sempre desenfreada. Mikael consegue encontrar soluções e juntar informações sem revelar nenhuma de suas fontes, o que, às vezes, lhe custa muito caro.
Larsson não escreveu apenas uma história de suspense em “Millennium”. Ele usou a obra para dar uma alfinetada no jornalismo sueco – e, por que não dizer, mundial – ao denunciar práticas e jogos políticos e econômicos que estão presentes pelas redações do mundo todo, desde as menores até as maiores. Enquanto a maioria das revistas e jornais suecos fechava os olhos para a corrupção econômica que acontecia no país a fim de não comprometer seu sustento, através da publicidade impressa em suas páginas, a Millennium trabalhava arduamente para denunciar as máfias de colarinho branco e, por diversas vezes, se viu quase indo à falência justamente por isto.

Outro ponto de destaque se trata do embate ético no qual Mikael se encontra quando precisa decidir se usar de meios ilegais - no caso, invasão de computadores - é válido para denunciar os crimes cometidos por Wennerströem no primeiro livro da trilogia. No final, o personagem se dá conta de que, às vezes, é preciso atravessar certas barreiras e burlar algumas regras se quisermos fazer justiça de fato. Larsson também nos mostra em sua obra que, por vezes, sensos pessoais de justiça são mais justos que sensos sociais, e que não há problema algum nisto. Mais do que um bom suspense, "Millenium" é puro jornalismo, em sua mais honesta e pura essência.


O que
: Millennium.
Autor: Stieg Larsson.
Editora: Companhia das Letras.
Quanto: R$ 89,90 a trilogia.
Gênero: suspense.
Quando: 2005, 2006 e 2007.

sábado, 1 de setembro de 2012

Conexão, lama, música e algemas

Duas das coisas que eu mais amo são música e cinema. Consequentemente, a mistura de minhas paixões tende a ganhar um espaço bem significativo em minha lista de melhores produções. Sempre fui muito fã de séries, livros e filmes ricos em referências musicais ou que saibam retratar e incorporar o universo da música no enredo. É assim com "Almost Famous" (Cameron Crowe, 2000), um de meus filmes preferidos, e com o maravilhoso irlandês "Once"(John Carney, 2006), citando alguns exemplos.

Para minha surpresa, no final de semana passado, após ler uma resenha negativa, resolvi assistir a "Tonight You're Mine", também conhecido como "You Instead" (David Mackenzie, 2011). Ainda bem que não acredito em resenhas! 

You Instead, dirigido por David Mackenzie / Foto: divulgação.
O romance alternativo foi rodado durante o maior e mais tradicional festival de música da Escócia, o T In The Park. A premissa é simples e chega a ser até um pouco clichê: os músicos Adam (Luke Treadaway), vocalista irresistível e mulherengo de uma banda de sucesso, e Morello (Natalia Tena, a Tonks de Harry Potter e a Osha de Game of Thrones), líder de uma banda feminista não muito conhecida, se cruzam no parque do festival e começam uma briga sem sentido. Bem na hora, um segurança com tendências "paz e amor" passa pelo local e, após dar um sermão no grupo, algema Adam à Morello. A partir daí, os dois precisam andar juntos o tempo todo e a irritação, responsável por ter colocado os protagonistas naquela situação, é transformada pela paixão que ambos têm pela música.

Luke Treadaway e Natalia Tena como Adam e Morello / Foto: divulgação
A produção, por ser de certa forma independente, consegue desenvolver a relação dos personagens de forma leve, divertida e encantadora, e o clima de festival de música não serve como pano de fundo, mas sim como elemento determinante e intimamente relacionado à vida e às personalidades de Adam e Morello. Ali, no meio da lama, dos banheiros químicos e de outros apaixonados por música, os dois estão em casa. 

Luke Treadaway e Natalia Tena como Adam e Morello / Foto: divulgação.
O namorado de Morello, Mark (Alastair Mackenzie), é um ricaço que genuinamente gosta dela, tenta entender e é parceiro, acompanhando sua vida de música e dando apoio em questões que dizem respeito à carreira de Morello. Uma das cenas mais marcantes da produção, porém, traduz a relação de ambos perfeitamente: quando Adam e Morello percebem que, de fato, a linha que diferencia o amor e o ódio é muito tênue, Adam explica para Mark (e para quem mais quiser ouvir) que a conexão que ele e a moça têm é uma em um milhão. É rara, e pode até ser que Mark realmente goste dela, mas aquela conexão - aquela em que somente dois amantes da música podem ter - Mark nunca vai conseguir alcançar. Aquele pedaço do coração de Morello, que bate junto à batida da bateria e ecoa junto aos acordes de guitarra, só pode ser entendido e amado por quem tem dentro de si um coração que bata na mesma sintonia.

Luke Treadaway e Natalia Tena como Adam e Morello / Foto: divulgação.
Apesar de um final que deixa a desejar, a produção faz com que o espectador se sinta parte do T In The Park, com takes dos shows dos palcos principais e secundários que incluem apresentações de tradicionais músicos britânicos como Paolo Nutini, Newton Faulkner e Jo Mango (em uma inesquecível performance intimista e sensível, para poucas pessoas, dentro de uma tenda). Cenas dos participantes do festival assistindo aos shows e se divertindo na estrutura lamacenta do T e em seus parques de diversão também são um deleite aos olhos de quem assiste “Tonight You’re Mine”. Definitivamente, um longa subestimado e que deve ser visto por todos os amantes da música.

O que: Tonight You're Mine
Gênero: comédia / drama.
Quando: de 2011, sem previsão de lançamento no Brasil.

Autora deste texto: Vanessa Freitas.
 

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Girls: humor nu e cru e ilustração perfeita das mulheres da Geração Y

A famosa Geração Y. A tristeza e a angústia de se conformar com um emprego das 8h30 às 18h30 que você simplesmente odeia para não ter que depender financeiramente dos pais. A constante sensação de se estar totalmente perdido e sem saber o que fazer. Sozinho mesmo entre um milhão de pessoas. A acidez e o sarcasmo diante de todo este conformismo.

É isso que assistimos aos montes em "Girls", série produzida pela HBO que acerta em cheio ao se dirigir para este público de que tanto se fala, mas que muito poucos conseguem, de fato, compreender. Através de Hannah Horvath, protagonista interpretada por Lena Dunham, criadora e roteirista da série, somos apresentados a este mundo que, arrisco dizer, alguns de nós conhecem até muito bem.

Hannah Horvath, interpretada por Lena Dunham / Foto: divulgação.
Ambientada em Nova Iorque, "Girls" já parte para sua segunda temporada, com estreia prevista para 2013, mas começou a ser exibida pela HBO Brasil somente em julho deste ano. Erroneamente comparada com "Sex and the City", o mérito de "Girls" se dá ao abordar assuntos que se fazem sempre presentes na vida de jovens mulheres de maneira crua, o que por vezes, além de arrancar risos incontroláveis do espectador, acaba também o assustando.

Explico. "Girls" não tem medo do politicamente incorreto. Nua e crua, sem hipocrisias, a produção mostra que sim, apesar da aura sexualmente independente e do espírito feminista tão em voga nas últimas décadas, uma das principais coisas que a maioria das mulheres ainda busca é ter alguém por elas no final do dia. Queremos amor. Mas, tanto quanto, também queremos bom sexo, uma boa carreira, um trabalho que amamos, dinheiro, diversão, bons amigos. E, no desespero para alcançar nossos objetivos, acabamos nos atropelando e fazendo coisas das quais iremos nos arrepender. E temos medo da vida porque, na maioria das vezes, acabamos só quebrando a cara.

Mas outra ilustração que "Girls" nos apresenta com maestria é que, apesar do fracasso e do medo do fracasso, as mulheres nascidas na década de 1980 caem e levantam. Se aprendemos com nossos erros ou não, isso já é outra história. 

Hannah é formada em Literatura Inglesa e quer ser escritora. Ainda sustentada pelos pais, incapaz de aguentar a situação de trabalhar com o que odeia apenas para ganhar dinheiro, a comodidade acaba quando seus progenitores decidem cortar suas verbas.

Hannah, então, pula de um emprego odioso para outro, enquanto tem que lidar com a paixão por um parceiro desequilibrado destaque aqui para a performance simplesmente brilhante de Adam Driver como Adam Sackler, personagem que à primeira vista causa raiva, mas que depois ganha a empatia do público e com os dramas do grupo de amigas Marnie (Allison Williams), com quem Hannah divide um apartamento, Jessa (Jemima Kirke), típica inglesa de comportamento arrogante e intolerante, e Shoshanna (Zosia Mamet), uma virgem de 21 anos que idolatra a postura sexualmente livre do resto das amigas. Ainda no núcleo de personagens secundários, Charlie (Christopher Abott), namorado "bundinha" de Marnie, que idolatra e diz amém para tudo que a namorada faz, e seu melhor amigo Ray (Alex Karpovsky), a antítese de Charlie, para quem as mulheres causam irritação e só servem para fazer sexo.

Marnie, Hannah, Jessa e Shoshanna em "Girls" / Foto: divulgação.
Outros pontos de "Girls" que merecem ser destacados são a objetividade dos episódios, que duram não mais que 30 minutos e que mostram somente o necessário, muitas vezes deixando a interpretação com o espectador, a trilha sonora as canções que fecham os capítulos sempre têm relação com a história, e a seleção é marcada por artistas como Robyn, MGMT, Camera Obscura, Feist, Jay-Z e Best Coast e o fato de que a atriz que interpreta a protagonista é baixinha, gordinha e tatuada, o que, definitivamente, não segue os padrões de beleza vigentes nas produções televisivas e cinematográficas em que, mesmo quando o personagem tem a esquisitice e a estranheza como características próprias, os produtores acabam contratando atrizes magras, altas e de cabelos impecáveis para os papeis.

O que: Girls
Onde: HBO
Quando: 2ª temporada prevista para janeiro de 2013.

Autora deste texto: Vanessa Freitas.